Entrelaços | Expansão do Ser

O Rei sem ofício

Livro 6

Desejamos aos nossos clientes e amigos que, em 2014, ao tecermos o tapete da vida com nossas intenções e gestos, a fonte de inspiração seja o Amor. Que a história do Rei sem Ofício seja uma fonte de inspiração para você.

Alba Maria Torres

O Rei sem ofício. Era uma vez um rei que havia esquecido o velho conselho dos sábios segundo o qual quem nasce na comodidade e no conforto precisa fazer um esforço pessoal maior que os outros. Mesmo assim ele era um rei justo e popular. Um dia, quando viajava para visitar uma de suas terras mais distantes, uma tempestade desabou e separou seu barco da escolta real. A tempestade serenou depois de sete dias de fúria. O barco havia afundado e os únicos sobreviventes do naufrágio foram o rei e sua filha, pois eles, de algum modo haviam conseguido subir em uma balsa.

Depois de muitas horas a balsa foi jogada numa praia de um país totalmente desconhecido para os viajantes. Eles foram recolhidos por pescadores que os ajudaram no início, mas passado algum tempo, lhes disseram: “Somos muito pobres e não podemos continuar a mantê-los. Se caminharem para o interior, quem sabe poderão encontrar os meios de ganhar a vida.”Agradecendo aos pescadores e sentindo pesar por não poder conviver com eles, o rei começou a vagar pela região. Ele e a princesa foram de aldeia em aldeia, de

Não aparentavam ser melhores do que mendigos, e assim eram tratados. Às vezes conseguiam alguns pedaços de pão, outras vezes palha seca para dormir. Cada vez que o rei procurava melhorar sua situação pedindo trabalho, perguntavam: “O que você sabe fazer?” O rei então se dava conta de que não era capaz de realizar as tarefas exigidas, e retomava seu caminho. Em todo o país existiam poucas oportunidades de tarefas manuais, pois haviam muitos trabalhadores especializados. À medida que iam de um lugar para outro, ele percebia que ser rei sem país era uma condição inútil.

E refletia profundamente sobre o provérbio dos anciãos que dizia: “Só pode ser considerado seu aquilo que puder sobreviver a um naufrágio.” Depois de três anos nessa existência miserável e sem futuro, ambos se encontraram pela primeira vez numa fazenda cujo proprietário estava procurando alguém que cuidasse de suas ovelhas. Ele viu o rei e a princesa e lhes perguntou: “Precisam de dinheiro?” E eles responderam que sim. ”Sabem cuidar de ovelhas?” ”Não”, disse o rei. “Pelo menos você é honesto, - disse o fazendeiro-, “e por isso darei a você uma oportunidade de ganhar a vida.”

O fazendeiro os enviou ao campo com algumas ovelhas e eles logo aprenderam que tudo o que precisavam fazer era protegê-las dos lobos e cuidar para que não se perdessem. Uma cabana lhes foi dada e, conforme os anos passavam, o rei recuperou algo de sua dignidade, embora não tivesse recuperado a felicidade. A princesa se transformou numa jovem bela como uma fada. Como ganhavam apenas o necessário para viver, não podiam planejar ainda o retorno à sua terra. Um dia, quando havia saído para caçar, o sultão daquele país viu a moça e enamorou-se dela. Então enviou um representante ao pai da jovem para pedi-la em casamento.

“Ó camponês!”, disse o mensageiro, “O sultão, meu amo e senhor, pede a mão de sua filha em casamento.” “E o que ele sabe fazer, qual é o seu ofício e como ele pode ganhar a vida?”, perguntou o ex-rei. “Idiota! Vocês camponeses são todos iguais”, gritou o mensageiro. “Você não entende que um rei não precisa ter ofício, pois sua habilidade consiste em conduzir reinos? E que você foi eleito para uma honra que ordinariamente estaria muito além de qualquer esperança possível para pessoas comuns?” “Tudo que sei”, disse o rei-pastor, “é que seu amo, sendo sultão ou não, não será marido para a minha filha, a menos que seja capaz de ganhar a própria vida.

Eu sei uma ou duas coisas a respeito do valor das habilidades.” O mensageiro regressou e contou a seu amo real o que o estúpido camponês havia dito, e acrescentou: “Não devemos nos preocupar com pessoas como essas, senhor, porque elas nada sabem a respeito das ocupações de um rei.”Mesmo assim, uma vez recobrado de sua surpresa, o sultão disse: “Estou perdidamente apaixonado pela filha desse pastor, e por isso devo estar preparado para fazer qualquer coisa que seu pai ordene, a fim de casar-me com ela.” Deixando o reino nas mãos de um regente, o sultão tornou-se aprendiz de um tecelão de tapetes. Quase um ano depois, ele já dominava a arte de fazer tapetes simples.

Com alguns de seus próprios trabalhos dirigiu-se à cabana do rei-pastor e apresentou-se diante dele dizendo: “Sou o sultão desse país e queria casar-me com sua filha. Tendo recebido a mensagem de que você requer de seu futuro genro habilidades úteis, estudei tecelagem. Aqui estão alguns exemplos do meu trabalho.” “Quanto tempo você levou para fazer este tapete?”, perguntou o rei-pastor. “Três semanas,” respondeu o sultão. “Quando o vender, quanto tempo poderá viver com o que obtiver?” “Três meses,” respondeu o sultão. “Você pode se casar com minha filha,... se ela quiser aceitá-lo,” disse o pai.

O sultão ficou encantado e feliz quando a princesa consentiu em casar-se com ele.“Seu pai”, disse ele, “mesmo sendo um camponês é um homem sábio e sagaz.”“Um camponês pode ser tão inteligente quanto um sultão”, disse a princesa, “mas um rei, se teve as experiências necessárias, pode ser tão sábio quanto o camponês mais sagaz.”O sultão e a princesa se casaram com todo esplendor. O rei-pastor, com a ajuda de seu novo genro, regressou ao seu país, onde ficou conhecido para sempre como um monarca bom e inteligente, que nunca se cansou de alertar a todos e a cada um de seus súditos para que aprendessem um ofício útil.

Este livro foi escrito na primavera de Curitiba, especialmente para nossos clientes, levando uma mensagem das histórias do folclore dos povos da Terra como fonte de inspiração para seus projetos